Dos limites da pequena dor

 

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é páscoa.

“você quer ver as fotos?” e então vê as entranhas do filho. lado de dentro para fora. buquê de rosas acomodado sobre a pele fina da barriga.

e escuta fria análise de nomes, procedimentos, anatomia.

“este pedaço quase necrosou, mas deu para salvar”.

olhando pedaços esqueceu-se do filho-todo.

que, em algum lugar, com seu corpo mínimo tensionado, esconde suas mil rosas sob uma recém-desenhada cicatriz.

talvez exista salvação.

e eclode um botão prenhe de luz.

 

 

 

Do livro das árvores de rapina: O Acauã

Imagem

O Acauã mede aproximadamente 47 cm de comprimento. Seu formato é único entre os gaviões e falcões (Obs: de fácil identificação visual quando em pouso). Bastante “cabeçudo” possui uma máscara negra estendendo-se dos olhos até a nuca. A cauda, longa e negra, possui 5 listras brancas estreitas. O olho é negro, com a pele em volta das narinas e os pés amarelados. Bico negro. As penas do alto da cabeça tanto podem estar abaixadas, formando uma silhueta arredondada, como eriçadas, aumentando o tamanho da cabeça. Em voo, as asas parecem curtas e arredondadas, pequenas em proporção à cabeça e à cauda. Bate as asas de modo especial, rapidamente e em pequena amplitude, parecendo estar fazendo um grande esforço para voar . Conhecido também como macauá e acanã. Em algumas regiões do Brasil, como por exemplo no interior de Minas Gerais, sua vocalização; transcrita por alguns como “Deus-quer-um”.

Fonte: http://www.avesderapinabrasil.com/herpetotheres_cachinnans.htm

Todos os nomes

Entro na loja e peço o livro As horas nuas.

O vendedor me entrega outro, Ilusões Perdidas.

Eu demoro um tempo observando a capa até notar a diferença. Peço ( depois de pensar em vários nomes que me tragam algum sentido, ilusão barata, me libertem do estigma) algum livro da Clarice Lispector, mas faço uma ressalva: Menos aquele da barata.

O vendedor me dá dois livros achando que é um só. Recuso-me a olhar os títulos e perceber que não estou pronta para ler nenhum deles.

Há um homem de preto e guarda-chuva aberto ao meu lado, ele percebe o erro, mas continua calado. Ele é enorme e faz uma sombra imensa sobre mim.

Vou até o caixa e dou um cartão vencido. Abaixo a cabeça e percebo uma mancha preta nos meus dedos.

O cartão passa.

Pego os livros e olho de relance um dos títulos: A metamorfose.

Saio rapidamente da loja.

A criança esplendorosa

para Blanchot

Desta criança terrível
em que foram depositadas
as maravilhas e o inacreditável do milagre,

nada restou.

Talvez essa incômoda ruína
que remete e mente
àquilo que nunca fui.

A foto no álbum,
este olhar meio faminto
apalpando as anatomias indecentes
desta minha vida de través.

O suor salgado da véspera,
os sentimentos diluídos,
a poeira do instante.

Nua, sentei-me aos pés desta cama:
era hora de sacrificar
esta esplendorosa criança.

Fabiana Farias

2011

Publicado em: http://seriealfa.com/alfa/alfa50/FFarias.htm

Mais uma do amor

Amor, quando contei sobre aquela terrível doença
Você chorou.
A cirurgia, os exames,
A fraqueza do depois do corpo aberto
E eu ouvi sua voz.
Chorei tanto.

É isso.
Nós choramos.
Vivemos saudades,
A alegria, alegria.

Nos amamos nas crises de riso que temos na cozinha.
Por alguma bobagem momentânea
E vai ser sempre assim.
Através do tempo que desgasta tudo.
O esmalte, as roupas, as pessoas, o corpo, os sentimentos…
Ele só não desgasta esse mistério
O amor.

Fabiana B. Farias
(Outubro de 2010)

essas coisas do amor e do ódio…

© Foto de Jean Marc Bouju. Filho abraça o pai em campo em campo de prisioneiros. Iraque 2003

narrar um assassinato é quase tão

difícil como dizer que te amo

como falar do sangue que se esvai ou

vc cantarolando numa aléia do horto de vestido florido

como descrever o terror dos olhos e o grito sequelado ou

vc vendo tv de calcinha de algodão

ou como dizer da arma ainda quente ou

seu corpo mole na cama

essas coisas do amor e do ódio

são impossíveis de narrar.

Chacal

Daqueles livros que mudam sua vida: O estrangeiro

“E, com as horas de sono, as recordações, a leitura de minha ocorrência e alternância da luz e da sombra, o tempo passou. Tinha lido que na prisão se acaba perdendo a noção do tempo. Mas, para mim, isto não fazia sentido. Não compreendera ainda até que ponto os dias podiam ser, ao mesmo tempo, curtos e longos. Longos para viver, sem dúvida, mas de tal modo distendidos que acabavam por se sobrepor uns aos outros. E nisso perdiam o nome. As palavras ontem ou amanhã eram as únicas que conservavam um sentido para mim.”

Albert Camus.  In: O estrangeiro

Daqueles livros que mudam sua vida: Romeu e Julieta

Jardim de Capuleto
(Entra Romeu)
ROMEU- Só se ri das cicatrizes aquele que nunca sentiu uma ferida. (Julieta aparece à janela) Mas… devagarinho! Qual é a luz que brilha através daquela janela? É o oriente, e Julieta é o Sol. Ergue-te, ó Sol resplandecente, e mata a Lua invejosa, que já está fraca e pálida de dor ao ver que tu, sua sacerdotisa, és muito mais bela do que ela própria. Não queiras mais ser sua sacerdotisa, já que tão invejosa é! As roupagens de vestal são doentias e lívidas, e somente os loucos as usam. Deita-as fora! Esta é a minha dama! Oh, eis o meu amor! Se ela o pudesse saber! O seu olhar é que fala e eu vou responder-lhe… Sou ousado de mais; não é para mim que ela fala. Duas das mais belas estrelas de todo o firmamento, quando têm alguma coisa a fazer, pedem aos olhos dela que brilhem nas suas esferas até que elas voltem. Oh! Se os seus olhos estivessem no firmamento e as estrelas no seu rosto! O esplendor da sua face envergonharia as estrelas do mesmo modo que a luz do dia faria envergonhar uma lâmpada. Se os seus olhos estivessem no Céu, lançariam, através das regiões etéreas, raios de tal esplendor que as aves cantariam, esquecendo que era noite. Vede como ela encosta a face à sua mão. Oh! quem me dera ser a luva dessa mão, para poder tocar a sua face.
JULIETA- Ai de mim!
ROMEU- Está a falar… Oh! continua, anjo resplandecente! Porque esta noite tu brilhas tão esplendorosamente sobre a minha cabeça como um alado mensageiro do Céu perante o olhar extrasiado dos mortais, que escondem a íris nas pálpebras ao inclinarem-se para o contemplar quando ele perpassa por entre as nuvens indolentes e navega no seio do ar.
JULIETA- Oh! Romeu, Romeu! Mas porque és tu Romeu? Renega o teu pai, o teu nome; ou, se o não quiseres fazer, jura apenas que me amas e deixarei eu de ser uma Capuleto.
ROMEU (aparte)- Deverei eu continuar a ouvi-la, ou responder-lhe?
JULIETA- É apenas o teu nome que é meu inimigo; tu és tu mesmo, e não um Montecchio. E que é um Montecchio? Não é mão, nem pé, nem braço, nem rosto, nem qualquer outra parte que pertença a um homem. Oh! Sê qualquer outro nome! O que é que existe num nome? Aquilo a que nós chamamos rosa teria o mesmo perfume embora lhe déssemos outro nome! Assim, Romeu, ainda que não se chamasse Romeu, conservaria a mesma perfeição que agora possui. Romeu, renuncia ao teu nome, e em vez dele, que não faz parte de ti mesmo, apodera-te de mim!
ROMEU- Aceito. Chama-me apenas teu amor, e far-me-ei de novo baptizar. De ora avante nunca mais serei Romeu.
JULIETA- Quem és tu que, assim protegido pela noite, vens surpreender o meu segredo?
ROMEU- Eu não sei que nome hei-de pronunciar para te dizer quem sou. O meu nome, querida santa, eu próprio o odeio, por ser para ti um inimigo. Se eu o tivesse escrito, rasgá-lo-ia.
JULIETA- Os meus ouvidos não escutaram uma centena de palavras pronunciadas por esta voz, e contudo eu reconheço-a. Não és tu Romeu, e Montecchio?
ROMEU- Nem uma coisa nem outra, gentil donzela, se ambas te desagradam.
JULIETA- Dize-me: como vieste tu até aqui e para quê? Os muros do jardim são altos e difíceis de escalar; e este lugar será para ti a morte se algum dos meus parentes te descobre aqui.
ROMEU- Transpus estes muros com as leves asas do amor, porque não são as barreiras de pedra que o podem embaraçar; e o que o amor tem possibilidades de fazer ousa logo tentá-lo! Por isso mesmo, não são os teus parentes que me servirão de obstáculo.
JULIETA- Se eles te vêem, matar-te-ão.
ROMEU- Ai! Há mais perigo nos teus olhos do que em vinte das suas espadas. Basta que me olhes com ternura e ficarei couraçado contra a sua inimizade.
William Shakespeare  In: Romeu e Julieta
* Em homenagem ao aniversário do meu Romeu.